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Dionísio Torres

O homem

Dionísio de Oliveira Torres nasceu em Mossoró em 1887 e viveu quase toda a vida em Fortaleza, a cidade que amava como sua.

Suas origens

Dionísio de Oliveira Torres nasceu em 18 de fevereiro de 1887 na cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte. Foi levado a morar em Fortaleza aos 3 anos, quando sua família se transferiu para lá, em 1890.

Seu pai, Joaquim d’Oliveira Torres, descendente direto de portugueses de Braga e um dos fundadores da cidade de Mossoró, teve destacada atuação na sociedade de Fortaleza, embora nunca tenha se envolvido em atividades político-partidárias. Montou uma fábrica de guarda-sol bem no centro da cidade, na Praça do Ferreira, e depois construiu o Edifício Torres, até hoje em funcionamento, onde teve uma empresa de exportação. Joaquim Torres era sempre consultado por políticos nas horas difíceis dos dias agitados da recém-proclamada república, e seu caráter reto orientava os honestos para a boa ética.

Nesse clima, influenciado pelo exemplo do pai, Dionísio cresceu na cidade que amava como sua.

Formação universitária

Aos 16 anos, já estava matriculado na Faculdade de Medicina e Farmácia da Bahia. Naquele tempo (1903), uma única faculdade graduava, igualmente, médicos ou farmacêuticos.

Em Salvador, teve como companheiro de quarto o seu amigo-irmão, o renomado médico cearense Dr. Pedro Sampaio, com quem manteve sólida amizade por toda a vida.

Estudante brilhante, formou-se em Farmácia aos 19 anos, caso raro então. Ostentava com orgulho o diploma assinado pelo paraninfo da turma de 1906, o cientista Oswaldo Cruz. No quadro de formatura, Dionísio Torres figurava como o único cearense.

Casamento

Em 12 de agosto de 1911, aos 24 anos, casou-se com Geórgia de Castro Motta Torres, filha do conhecido leiloeiro Francisco Emídio da Motta, famoso pelos anúncios curiosos que redigia para os amigos. Chico Motta era monarquista e foi o tesoureiro da comissão que angariou fundos para erguer a estátua de D. Pedro II na Praça da Sé, inaugurada em 1912. Geórgia descendia da família cearense dos Motta, de muitas gerações no Brasil, que remontam ao século XVIII em Minas Gerais.

Geórgia e Dionísio no retrato de casamento
Foto do casamento, em 1911.
Dionísio e Geórgia, já idosos, lado a lado
O casal no Natal de 1947.

A família morou no chalé da rua Visconde do Rio Branco, 2309, no bairro Joaquim Távora, desde a sua inauguração, em 31 de dezembro de 1899, até a década de 1950.

Vida pública

Cargos públicos

Convidado constantemente a assumir cargos públicos, manteve-se fiel à conduta apolítica do pai. Certa vez, constrangido, teve que recusar o convite do governador Matos Peixoto, de quem era grande amigo, para assumir funções de destaque no seu governo, inclusive a de prefeito de Fortaleza.

Centro Médico Cearense

Foi um dos fundadores dessa entidade de classe, e sua fotografia foi colocada no salão nobre da sede social.

Idealizado pelo oftalmologista Dr. Manoel Duarte Pimentel, o Centro Médico Cearense começou com um convite a médicos e farmacêuticos para uma reunião em 20 de fevereiro de 1913, da qual Dionísio participou ativamente. O nome foi sugerido pelo Dr. Aurélio Lavor, para uma sociedade com objetivos científicos que fosse o órgão oficial de médicos, farmacêuticos e odontólogos. Hoje a entidade é a Associação Médica Cearense.

A vida e a obra do farmacêutico e sanitarista Dionísio Torres ainda hoje inspiram pesquisas universitárias na área de saúde.

Empreendimentos

Farmácia no Rio de Janeiro

Recém-diplomado, viajou para o Rio de Janeiro, onde, com um capital de dez contos de réis, montou uma farmácia na rua Gonçalves Dias, pertinho da Ouvidor. A licença de funcionamento foi concedida por Oswaldo Cruz, que mandou inspecionar se tudo estava em ordem, como determinava a lei. O cientista assinou “Gonçalves Cruz”. Nem Oswaldo, nem Doutor!

A farmácia, lembrava Dionísio, era frequentada por intelectuais da época, entre eles Emílio de Menezes, que pedia para guardar ali os pacotes de biscoitos estrangeiros que comprava para seu cão. Outra presença habitual era a do historiador Gustavo Barroso, que mencionou o seu nome, com destaque, no livro “Liceu do Ceará”.

Comércio exterior e indústria pioneira

Retornou ao Ceará sete anos depois para trabalhar com o pai no comércio exportador, instalado no Edifício Torres, que ainda existe na Praça do Ferreira, lado sul, com frente para a rua Pedro Borges, esquina com a rua Major Facundo.

Ao mesmo tempo, implantou uma fábrica de embutidos (linguiça, salsicha, salame), sendo o precursor dessa indústria nas regiões Norte e Nordeste.

Em 1925, após a morte do pai, voltou ao Rio de Janeiro, convidado por uma importadora inglesa. Já com 38 anos, estudou intensamente inglês para exercer a função de chefe de compras da firma. Traduzia inglês razoavelmente bem e falava francês fluentemente.

Laboratório Malvyl

De volta ao Ceará em 1928, como pioneiro da indústria farmacêutica no estado, montou a indústria de sabonetes e perfumaria Laboratório Malvyl S/A. O negócio prosperou principalmente porque produzia seus próprios buquês, à base de ingredientes aromáticos importados, e seus produtos eram bem aceitos nas principais cidades brasileiras.

Perfumista de talento, desenvolveu um sabonete oval, transparente e escuro, inspirado no inglês Pears’ Soap. Pesquisou diversas essências do Norte e Nordeste até chegar a uma mistura que combinava essência de pau-rosa a mais de uma centena de ingredientes, como sândalo, cravo-da-índia e canela de Madagascar. Esse sabonete era o carro-chefe do laboratório.

Suas fórmulas do “Malvyl”, um medicamento de mil utilidades no lar, e do “Malvilino”, sabão líquido de uso higiênico-terapêutico nos casos de sarampo e catapora, além de uma linha completa de perfumes e sabonetes, tornaram-se um orgulho para Fortaleza. Os dois levavam como elemento medicinal o suco da erva malva, de conhecidas virtudes emolientes.

Durante muitos anos, ao lado do Dr. Meton de Alencar e seu “Asseptol”, Dionísio fez concorrência aos produtos cariocas e paulistas, como o famoso Sabão Aristolino. Os produtos cearenses foram sempre campeões de venda nas farmácias e armarinhos da região.

Granja Castelo, em Messejana

Comprou um sítio em Messejana e construiu a Granja Castelo, que ajudava a abastecer Fortaleza de frangos com aviários de instalações sofisticadas para a época.

Messejana não tinha estrada de acesso, apenas um caminho de terra entre o carnaubal, batido pelas tropas de jegues vindas do interior. Na casa às margens da lagoa, Dionísio oferecia recepções às autoridades. O presidente do estado, o engenheiro João Tomé de Sabóia e Silva, convencido das perspectivas que Dionísio lhe apontava, construiu a estrada de Messejana, em piçarra, com as famosas pontes. O distrito conheceu logo o progresso e Fortaleza passou a ser mais bem abastecida.

Estância Castelo e o loteamento

Na mesma década de 1920, comprou as terras do Outeiro, no ponto mais alto da cidade, plantou um coqueiral, criou uma granja leiteira com o primeiro gado holandês trazido ao Ceará e, em 1939, abriu ali um dos primeiros loteamentos de Fortaleza. Essa história está contada em O bairro.

Filantropia

Paróquia da Piedade

Quando os salesianos chegaram a Fortaleza, encontraram em Dionísio Torres um amigo e colaborador. Ele doou o terreno para ampliação da Paróquia da Piedade e outros imóveis vizinhos para a instalação da ordem e de uma escola profissional para as crianças do bairro.

Quadra na Avenida Antônio Sales

Doou também aos salesianos a quadra de 7.500 m² entre a Avenida Antônio Sales (sul), a rua João Brígido (norte), a rua José Lourenço (leste) e a rua Rui Barbosa (oeste). Os donatários deram à área outra destinação.

Vila Vicentina

Considerava desumano deixar construir casebres nas ruas como solução paliativa para o problema da moradia. Por isso doou à Associação dos Vicentinos a quadra de 8.500 m² na rua Tibúrcio Cavalcante, esquina com a Avenida Antônio Sales, onde foi construída a Vila Vicentina da Estância, com 46 casas para idosos desamparados, além de capela, ambulatório, gabinete dentário, enfermaria, administração e salão de recreação. Pela doação e pelo apoio financeiro contínuo, a Sociedade São Vicente de Paulo lhe conferiu o diploma de Grande Benemérito da Vila.

Praça João Dummar

Cedeu ao município o terreno de 1.500 m² na Avenida Antônio Sales, esquina com a rua Oswaldo Cruz, para a Praça João Dummar, em homenagem ao fundador da Ceará Rádio Clube e precursor da radiofonia cearense.

Colégio Joaquim Albano

O colégio funciona em terreno do Loteamento Terras da Estância Castelo, cedido gratuitamente ao Estado do Ceará.

As doações para a caixa d’água e as obras de estradas e luz elétrica do bairro estão em O bairro.

Produção cultural

Jornalista

Foi colunista hábil e malicioso do jornal “A Tribuna”, onde pontificava a pena de Fernandes Távora. Na sua coluna, costumava dissecar os políticos corruptos. Colaborava também com a revista “Chácaras e Quintais”, com artigos sobre criação de cães de raça.

Inteligência brilhante, trazia sempre uma resposta na ponta da língua, às vezes malcriada, dependendo do veneno do interlocutor. Polêmico, dificilmente alguém levava a melhor. Com grande repercussão, publicou artigos justificando a recusa em aplicar no seu gado leiteiro uma vacina fabricada em Fortaleza.

Compositor

Gostava de canto, amava a música e tocava violão. Ainda solteiro, compôs a canção “Serraninha”, dedicada a uma senhorita da sociedade de Fortaleza.

Bela serrana
Irmã das flores da serra
És soberana
Entre as mais belas da terra

Serraninha, Serraninha
Da terra dos cafezais
És a pequena bonita
Por quem meu peito se agita
E por quem sofro demais

Não há nas flores,
Nas flores todas da serra
Tão belas cores
Como as que o teu rosto encerra

Brisa serrana
Beija-lhe o corpo por mim
Vê como emana
O perfume do jasmim

Poeta

Autor do soneto “Flamboyant”, em que imagina a árvore em plena floração, quando se desnuda das folhas:

Eu vi meu flamboyant ensanguentado
De sangue vivo, rútilo, brilhante.
As folhas todas pelo chão molhado,
Só de flores a grimpa farfalhante.

Nas retortas de Deus manipulado
Aquele sangue vegetal, implante,
Guarda um segredo nunca desvendado
A matéria da química corante.

O mistério botânico se opera,
Quando a seiva incolor o sangue gera,
Num surto interminal de sangria.

E nenhum hemostático científico
Sopitaria o circular magnífico
Daquela interna e enorme hemorragia.

1966

Em 3 de fevereiro de 1966, vitimado por um derrame, morreu Dionísio Torres, aos 78 anos. Deixou a viúva, Geórgia de Castro Motta Torres, sua companheira de 55 anos, que viveu mais 12 anos, e os 11 filhos do casal.